Segunda-feira, 28 DE Junho 2010

Football Fans Know Better

Não estranhem a imagem. Sabe-se que o treinador holândes é adepto do 4x2x3x1: linha defensiva a 4, duplo pivot no meio-campo, um trio de médios mais orientados para o ataque e, na frente, isolado perante os centrais contrários, o virtuoso Van Persie. De facto, o esquema acima representado não pretende espelhar os traços dominantes desta equipa que compete na África na Sul, antes ilustrar uma concepção táctica mais de acordo com a sua tradição de futebol: um entusiasmante 3x4x3, típico da escola holandesa.

Bert van Marwijk imprimiu um cunho pessoal a esta selecção: óptimos resultados até ao momento (3 vitórias na fase de grupos, 5 golos marcados e, apenas, um sofrido), contudo com um nível exibicional algo longe de fascinar os chamados adeptos ‘românticos’. Existem, portanto, virtudes e pechas assinaláveis, cada qual na sua proporção e grau de importância.

Em primeiro lugar, esta equipa, não contando com defesas de qualidade elevada (topo europeu), acaba por ser sólida do ponto de vista defensivo. Para tal, muito contribui a adopção de um bloco mais baixo, permitindo melhor preenchimento dos espaços, e o apoio decisivo do duplo pivot no centro do campo: De Jong e o capitão Van Bommel. Esta garantia estrutural, no momento em que a bola está na posse do adversário, possibilita uma abordagem pragmática, mais orientada para o resultado e menos para o espectáculo.

Em segundo lugar, a opção por um modelo de jogo mais astucioso descaracterizou os principais fundamentos do ‘futebol total’: (i) circulação de bola no meio-campo adversário com precisão, a toda a largura do terreno e sem perda de eficácia; (ii) monopólio do ataque organizado, envolvendo vários jogadores no processo de construção e decisão ofensiva; e, (iii) no geral, privilégio cultural na prática de um futebol alegre, incisivo e vertiginoso ofensivamente, permanentemente virado para o golo.

Conclusão inicial: esta Holanda apresenta condições para ambicionar o máximo, mas corre o risco de baquear nos seus objectivos ao não respeitar a tradição da sua história futebolística. No meu entender, ‘laranja mecânica’ só em 3x4x3 (embora aceite o 4x3x3), pelo que passo a descrever a minha concepção ideal quando vislumbramos aquelas camisolas: laranja é sinónimo de (bom) futebol.

1. Posicionamento defensivo

Falta, a esta selecção, um central de grande nível mundial. Só com muito boa vontade se poderia afirmar que tanto Mathijsen, só utiliza o pé esquerdo, como Heitinga, reúnem um conjunto de atributos de excelência. Como tal, seguindo a ideia que só os melhores devem jogar, nada como retirar um deles para dar lugar a um colega mais talentoso. Apesar de tudo, prefiro o central do Hamburgo, pois considero que Heitinga denota imensas dificuldades (técnicas e mentais) para fazer frente a um avançado hábil e veloz. Esta defesa ainda não foi posta à prova, frente a um adversário de maior valia. Podem perguntar: então não seria um risco jogar só com 3 defesas? Claro que sim. Só que, por outro lado, isso também significa a existência de 4 médios e 3 avançados. Uma ‘laranja’ que se preze pensa no golo. E, se observarem o desenho, está lá De Jong para dar uma ajudinha defensiva.

2. Circulação de bola e transições

Uma vez mais, a imagem diz tudo: um losango, ligeiramente inclinado, preparado para controlar as transições (defensivas/ofensivas) e dominar a circulação de bola até à zona de finalização. Tudo parece estar no devido lugar. Em lados opostos, De Jong e Sneijder comandam as suas áreas de jurisdição, indo de encontro às tarefas que melhor se adaptam às suas características principais. Por seu lado, Van Bommel e Van der Vaart, são os pêndulos interiores que estreitam ou alargam o jogo a meio-campo, tendo a função conjunta de pisarem zonas do relvado mais à frente, ou atrás, consoante as circunstâncias assim o ditarem: em situação defensiva, o meio-campo equilibra-se em «3x1», com Sneijder menos envolvido na recuperação; em situação de posse, a equipa assume uma postura mais arrebatada em «1x3», ficando De Jong a preencher o espaço. Em síntese, um carrossel de futebol.

3. Mobilidade em largura e profundidade

Van Persie enfiado entre os centrais contrários? Desperdício. Por vezes, chega a ser confrangedor quando a selecção do país das tulipas nem sequer tem um homem na grande área adversária. Versatilidade de movimentos na fuga às marcações? Compreende-se. E quanto a ataque posicional? A Holanda não tinha por hábito privilegiar um futebol virado para a frente, sempre com 2 extremos bem abertos nas faixas e, pelo menos, 1 avançado centro? Marwijk tem imenso talento ofensivo ao seu dispor, pelo que a opção do 3x4x3 poderia resultar. O trio constituído por Robben, Kuyt e Van Persie acrescenta largura, profundidade, engenho individual no 1v1, técnica, velocidade e poder de fogo elevado. Depois, as ‘peças’ podem sempre mudar de posição, de maneira a confundir os defesas: Robben colocado no corredor esquerdo (mais por fora), com Kuyt desviado na direita (diagonais interiores) e Van Persie ao centro. Juntamente com Elia e Huntelaar, as possibilidades são vastas.

Em resumo, a actual selecção holandesa possui virtudes colectivas e qualidades individuais susceptíveis dos maiores feitos. A concepção de jogo suportada num esquema em 4x2x3x1, de grande consistência defensiva e rara inteligência táctica, merece alguns elogios. No entanto, esta ‘laranja’ mostra-se pouco sumarenta no atrevimento ofensivo e menos açúcarada no seu futebol. É a ‘clementina’ introduzida por Marwijk.

publicado por stadium às 11:02
Mais um excelente "post" táctico, contudo...

... contudo, gostaria de discutir duas coisas pelo menos:

1 - A questão dos defesas laterais e da dificuldade de existirem defesas com capacidade atacante e ao mesmo tempo com capacidade para jogarem como centrais. Neste caso, tanto van der Wiel, como Gio, não são dos melhores, não é?

No futebol moderno, vejo pelo menos dois jogadores com essas capacidades, ambos da eliminada Sérvia: Ivanovic e Kolarov. Estes dois conseguem fechar bem o centro, quando o médio defensivo/central vai para o meio-campo.

2 - Isto do futebol total tem muito que se lhe diga...
Por exemplo, no primeiro ponto acabo por ter que fazer um perfil de lateral que pode não corresponder à maioria ou encaixar neste modelo de "futebol total" holandês.

Eu sei que o autor quando escreves "futebol total", não se referes apenas, ao facto de ser um 3-4-3 holandês, mas sim à dinâmica do carrossel total. Escrevo isto, mais para quem possa não fazer essa distinção por vezes subtil mas muito importante. Por exemplo, o 4-3-3 típico, pode funcionar como "futebol total", aliás é talvez a táctica que melhor ensina os princípios básicos do futebol aos jovens, daí ser tão largamente usada. Não acho que seja a que melhor distribui os jogadores em campo, pois depende das características destes em conjunto. Mas, penso que seja a melhor em termos de ensinar o que devem ser as funções de cada um no terreno, para além de poder facilmente adaptar-se ao maior número de características diferentes dos jogadores. Do 4-3-3, dependendo de um ou outro jogador, e suas características, facilmente passa-se para um 4-4-2, ou para um 3-4-3 ou até para um 5-3-2. Dependerá da dinâmica.
O próprio 4-4-2 poderá funcionar como "futebol total", o 4-1-2-1-2, a mesma coisa e por aí fora.
O factor predominante para produzir futebol total é o entrosamento entre jogadores e as suas características. Não é à toa que o núcleo duro do futebol bonito do Barça têm pelo menos 3 épocas juntos. Não é à toa que o mesmo aconteceu com a Holanda de Cruyif ou com a "geração de ouro" nacional.
Cabe ao treinador é saber juntar as peças, para que a equipa tenha armas para todo o tipo de cenários que poderá encontrar em campo.

PS: o Hunterlaar não merece um lugar no onze titular da "clementina"? Ah! De Jong a baixar para central... não me cheira a que desse bom resultado. O Heitinga já chegou a jogar nessa posição não foi? Não sei se com bons resultados... Quem cairia que nem uma luva aí seria o Miguel Veloso...
PP a 28 de Junho de 2010 às 13:32
PP,

Obrigado pelo comentário.

Quanto à questão dos laterais, a escolha tem de ser feita. Duas hipóteses: ou o treinador optaria por defesas (direito/esquerdo), com capacidade para fechar ao centro; ou a solução passaria por 'abrir' a defesa com defesas laterais. Por exemplo, quando falamos em 3 defesas, uma coisa é serem 3 centrais e outra, diametralmente oposta, é estarem juntos 3 defesas (um central e 2 laterais). O Barcelona de Cruyff jogava com laterais: Ferrer, na direita; Sergi, na esquerda...

Em relação ao 'futebol total', qualquer sistema, desde que bem adaptado às características dos jogadores e bem implementado um modelo de «jogo», pode funcionar. Pouco importa se é 3x4x3, 4x3x3, ou 5x4x1. Lá está a dinâmica. Mas, o artigo refere-se à Holanda e à sua tradição nestes sistemas 'largos' e bem orientados para o golo e para o espectáculo.


Abraço.
stadium a 28 de Junho de 2010 às 13:40
Sim, mas tinha um Popescu que não era um De Jong... a minha dúvida quanto a esta Holanda (a que esquematizaste) está na capacidade de De Jong complementar bem o central.

Para além disso, não te esqueças que o Barça de Cruiyf, por muito bem que jogasse não conseguiu ganhar aquela champions ao Milan de Capello... pelo que também tinha os seus problemas e não era assim tão equilibrada como muitos pretendiam fazer querer.

Eu percebi que estavas a escrever sobre esta holanda, apenas quis salientar a questão da dinâmica, pois acho ela, o entrosamento entre atletas e a heterogénea mistura complementar entre eles, o que faz com que o futebol acabe por ser "total".

Sobre a actual Holanda, penso que era capaz de expressar melhor num 4-3-3 com o triângulo de meio-campo invertido, i.e., com um médio defensivo (van Bommel ou De Jong), um Sneidjer(De Zeeuw) e um van der Vaart (Affelay) a funcionarem juntos ora como médios de transição ora como organizadores, dois laterais ofensivos (van der Wiel e Gio) dois falsos extremos nas alas (Kuyt, van Persie, Robben e Elia, tanto faz) e um avançado centro (Hunterlaar, Kuyt ou mesmo van Persie).

Eu gostava de experimentar esse esquema de jogo. É que van der Vaart tem sido um pouco queimado neste esquema. Outra opção é um 4-1-2-1-2. Enfim, eles têm jogadores para tudo.

Acontece que depois temos de pensar nas possíveis substituições, que podem não estar familiarizados ora com o 3-4-3 ora, com o 4-1-2-1-2, ora com 4-4-2, pois o seu seleccionador tem treinado apenas o 4-2-3-1. Penso que para modificação de última hora, a do 4-3-3 (médio defensivo) seria mais fácil de ser absorvida.

E já agora, conseguirias colocar Portugal a jogar em 3-4-3 à holandesa?
PP a 28 de Junho de 2010 às 14:18
PP,

A esta altura, é claro que não será expectável grandes alterações em termos de sistema táctico: a equipa foi preparada (treinada) para jogar no 4x2x3x1, pelo que eventuais modificações só no sentido de um 4x3x3 (só com 1 pivot), como bem escreveste.

A questão não é essa. Trata-se, meramente, de um exercício teórico de mexer nas 'peças' disponíveis (esquece o Popescu, ou outros) e perceber o porquê de Marwijk ter rejeitado alguns princípios de «jogo» e um esquema tão típico da escola holandesa. Porquê esta opção táctica?

Quanto à selecção portuguesa, a resposta é afirmativa, em termos conceptuais, ou seja, apenas no plano teórico. Aqui fica um exemplo: 3x Bruno Alves, Ricardo Carvalho, Miguel Veloso; 4x Pepe (n.º 6), Tiago, Raul Meireles e Deco; 3 Simão, Cristino Ronaldo e Liedson (ou Hugo Almeida). Na defesa é que existem mais dúvidas...
stadium a 28 de Junho de 2010 às 15:05

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